Hoje tive que fazer um trabalho pra disciplina de Português III da minha faculdade. O encargo era fazer uma carta para o jornalista Roberto Pompeu, comentando seu artigo publicado na Veja. Aqui segue o artigo, e logo abaixo a carta.
São Luís, 26 de novembro de 2009
Caro Sr. Roberto Pompeu,
Acabo de ler seu artigo “Impávida clava forte” publicado no mês de setembro na Veja. Fiquei extremamente surpreso com alguns relatos e senti uma profunda identificação. Uma tranqüilidade parcial então brotou no meu espírito, daquelas comparadas unicamente a imensidão de um mar azul, que somente em cada onda quebrada nos mostra a cautela necessária. Para o esclarecimento de tal ocorrido, contarei um pouco da minha experiência de vida.
Me chamo João e meus pais são separados. Meu pai é muito rico, vive em uma mansão. Minha mãe, pelo contrário, é empregada doméstica e mora em um barraco. Já eu, alterno minha moradia entre estes dois mundos, intercalando as semanas entre um e outro.
Noutro dia fui ao estádio de futebol com minha mãe, é o programa que eu mais gosto, vamos sempre uma vez por mês. Contudo, eu não vim aqui para explanar o fato de eu freqüentar o estádio de futebol, vim ressaltar a particular estranheza de como eu me sinto em um lugar tão grande que comporta tamanha massa. Isto pois, sempre antes da partida começar toca-se o Hino Nacional, e junto das correntes sonoras dos enormes alto-falantes, pode-se sentir ecoando no estádio o grito forte acompanhando cada sílaba que compõe o Hino Nacional, cantado por todos, inexoravelmente todos ali presentes. Todos, menos eu. Agoniado por me sentir excluído busco, sem sucesso, em todos os rostos uma boca que não acompanha a letra. Foco até nos jogadores lá embaixo no campo, mas só consigo ver um coro pronto pra participar de qualquer ópera.
Como se não bastasse Sr. Pompeu, nas semanas que passo com meu pai, ele costuma me levar a eventos de gala, com direito a presença de figuras ilustres do alto escalão governamental. E como de praxe, na abertura de todo evento, de novo ouve-se o Hino Nacional e com ele todos os engravatados cantando forte. Já eu, me recolho a minha insignificância e absoluta minoria de um. Sem saber cantar o Hino e muito menos o que significa metade das palavras contidas nele. Apesar de não saber o Hino Nacional Sr. Pompeu, eu não me envergonho. Provo minha destreza e claro, com a ajuda do evento formalíssimo, quando fui de encontro ao Presidente da República que lá estava. Timidamente, mas conformado com minha anormalidade, perguntei ao Presidente o significado de cada palavra estranha ao meu conhecimento. Imediata e prontamente o Presidente esclareceu todas as minhas dúvidas, me dando uma aula de português digna de um PhD.
Voltando pra casa nesse mesmo dia, peguei uma revista pra folhear. Foi nesse instante que me deparei com a coisa mais intrigante da minha vida. Lendo o seu artigo não pude acreditar. Como assim? Outra pessoa não sabe cantar o Hino Nacional além de mim?! Que disparate! Que surreal! Que Kafkiano! Quer dizer então que eu não sou a única metamorfose? Sim, me respondi, e em conjunto com o alívio percebi o tamanho do risco que eu corro. A tranqüilidade parcial brotou, mostrando agora o lado violento das ondas. Graças a Vossa Senhoria, pude constatar o patamar em que se encontra errar o Hino Nacional. Manchetes em jornais, em revistas, vídeos por toda a internet! É o resultado pra quem comete esse desacerto, afinal, ninguém não sabe ou não entende o Hino Nacional além de mim e da Vanusa (ao menos é o que parece).
Atenciosamente,
Bruno Martins.




